UM NOVO MUNDO

Um Novo Mundo

Saímos da clareira e seguimos por um caminho em meio à mata até chegarmos ao asfalto, entramos à direita nesta estrada e começamos a viagem.
O veículo era parecido com os nossos carros da Terra, rodas, pneus e motor, mas era só nisso, no mais era um supercarro controlado por computador e guiado por comando de voz. O carro inclusive conversava com a gente em um tom bem suave e agradável, às vezes ele falava que iríamos encontrar um veículo modelo tal que estaria parado a tantos quilômetros à frente, e dito e feito, tantos quilômetros à frente lá estava um veículo parado e o modelo deveria ser aquilo que o computador prenunciara.
Após viajarmos por meia hora, o veículo anunciou que em breve haveria um posto de serviços e restaurante. Perguntou ao motorista, que de motorista pouco tinha, pois só conversava com o veículo, se ele gostaria de entrar neste posto para fazer lanche, e que também poderia abastecer o veículo com a energia necessária para rodar por mais quinze mil quilômetros.
Aí pensei… “quinze mil com um tanque de combustível!” E tive que perguntar:
- Que tamanho tem o tanque de combustível desse carro para conseguir percorrer essa enorme distância?
- Tamanho eu poderia lhe dizer que mais ou menos de trinta litros, mas o combustível é diferente do que você conhece e o motor também.
Perguntei então como seria esse motor e combustível, mas ele desconversou e disse que num futuro próximo, no nosso mundo, talvez também fosse assim.(…)

(…) Continuamos o turismo e após vários quilômetros de passeio e muitas curiosidades, dei por mim que a cidade estava sem semáforos no trânsito. Perguntei a ele.
- Como funciona este trânsito?
Ele me mostrou que os veículos eram intercomunicados, de modo que ao chegarem dois ou diversos mais, em um entroncamento de vias, já haviam se comunicado anteriormente, mantendo as distâncias e velocidades adequadas, o que dava fluidez ao trânsito e sem acidentes. Para evitar atropelamentos, eram equipados com radares inteligentes que detectavam pessoas e calculavam a possibilidade de elas atravessarem em frente ao veículo, então isso, somado com a educação e conscientização das pessoas, deixava o número de atropelamentos em quase zero, uma média de um a cada cinco anos, nessa cidade com seis milhões de habitantes.
Então continuei a observar as casas abaixo, com ruas como em uma cidade de interior, mas com grandes praças arborizadas, quadras de esportes, parques infantis com diversos brinquedos, e também de quando em quando construções diferentes, das quais algumas seriam indústrias de pequeno porte, outras hospitais, lojas ou mercados.
Continuamos e logo estávamos chegando a uma região onde havia um grande estádio. Ele me relatou que aquele era para eventos esportivos e que alguns quilômetros adiante havia outro igual só que destinado a eventos artísticos. Esses estádios eram incríveis por tamanho e beleza na arquitetura, mas principalmente as ruas ao seu redor me chamaram a atenção, aí ele me explicou que os estádios e ruas eram todos um projeto só, e desta forma eram construídos para que o trânsito fluísse normalmente mesmo no término de algum evento realizado.

Assim passamos o dia percorrendo toda cidade e esta sempre com inúmeras novidades para mim.(…)

(…) - Eu estou curioso! Como pode um hospital público sem filas e com todo este conforto? E você me falou ainda que eles têm o mesmo padrão de qualidade de um particular.
- É! É assim mesmo! Neste mundo ninguém precisa pagar por atendimento à saúde, seja corporal ou psicológica.
- Odontológica também?
- Sim, toda espécie de atendimento à saúde.
- Bem… continuo sem entender.
- Mais tarde eu explico como funciona e você irá entender.
Quanto mais conhecia esse mundo, mais eu ficava intrigado.(…)

(…) - Mas e então, como foi que saíram dessa grande crise? E ainda saíram para essa maravilha que é este mundo hoje?
- Em todos os países do mundo a crise havia se instalado, nuns de maneira mais intensa, noutros mais moderada, mas em alguns, a miséria era total. Em um pequeno país onde a crise também havia chegado, pois ninguém estava imune a ela, os governantes ousaram e implantaram uma estrondosa medida econômica, que fez barulho, causou risos e pouco caso por parte de quase todas as outras economias mundiais.
- Então tudo se iniciou em um único país?
- Único e pequeno país, mas com uma cultura voltada ao bem-estar de sua população, o que fazia com que lá os índices de violência e criminalidade fossem baixos e, mesmo com o desemprego e as dificuldades geradas durante a grande crise financeira, continuassem baixos.
- Nessa época eu tinha apenas doze anos, era uma criança adolescente e ignorava ainda os emaranhados da vida e muito menos entendia de política e economia ou dos problemas que estavam ocorrendo no mundo.
- Mas eu ouvia muito os adultos falarem de quão desastrosa estava a situação mundial.
- Essa história é muito bonita, saber que toda a mudança desse mundo ocorreu por causa de um pequeno país. Incrível! Mas e o que foi essa grande e ousada medida econômica?
- Certo, o governo desse país, (…)

(…) - Sabe, ainda estou curioso com aquela história do combustível que proporciona ao veículo rodar quinze mil quilômetros com um tanque de trinta litros.
- Tudo bem. Aquela noite estávamos nos conhecendo e tínhamos muitas outras coisas a conversar, então resolvi me reservar um pouco. Mas eu explico, e é algo bem simples de entender.
- Trinta litros, como lhe falei, é apenas o tamanho dele. O tanque tem o formato redondo como o de um disco, e seu volume é de mais ou menos trinta litros, mas líquido algum entra em seu interior.
- Se o combustível líquido está ausente, como é então, esse combustível?
- A combustão também está ausente no motor, logo o que entra no reservatório é somente energia.
Fiquei extasiado! Energia! Que tipo de energia seria essa para ser tão rapidamente inserida no veículo e ainda permitir rodar tamanhas distâncias com um volume de trinta litros? Aquilo era o máximo! Deveria ser alguma energia atômica.
- Você falou que era simples de entender, mas isto é fascinante e quanto mais fascina, mais complexo parece ser. Que tipo de energia é essa?
- Essa energia é a eletricidade, e o reservatório é um acumulador, uma bateria, e o motor, este é simplesmente um motor elétrico.
Aí acabei achando graça:
- Está tudo simples demais. As baterias que conheço têm a capacidade hiper ou quase infinitamente menor de acúmulo de energia, incapazes de dar essa enorme autonomia ao veículo com esse singelo tamanho de trinta litros.
- Eu sei, mas aqui já evoluímos um “pouco” mais do que vocês na área de eletricidade.
- Os acumuladores têm vida útil muito além da expectativa de uso do veículo. Os motores são de baixíssimo consumo e as iluminações também o são. E há também uma outra fonte de energia para o veículo.
- Além de tudo isso, ainda existe outra fonte de energia?
Eu já estava fascinado com tudo que ele havia descrito, e agora ainda havia outra fonte de energia…
- Eu já estou de queixo caído com tudo isto. E o que é que vem agora? Que outra fonte é essa?
- Quando terminarmos este percurso vou lhe explicar melhor qual é, e como funciona. Mas então é mais ou menos assim que se pode ter tamanha autonomia no veículo com pequena quantidade de energia. Também as formas que os elétrons são movimentados gerados e acumulados são bem diferentes das quais você conhece. Deixando estes últimos detalhes de lado, é pura energia elétrica, motor elétrico, e iluminação elétrica, tudo muito simples.
A viagem de retorno demorou um pouco mais. Levou quarenta minutos para concluir todo trajeto o qual agora era de aclive. Acho que isso deveria ser normal. Mesmo em um mundo mais avançado, a lei da gravidade deveria ser a mesma.
Ele então saiu com o veículo, percorreu alguns quilômetros, parou o carro e desceu convidando-me a fazer o mesmo.
- Agora vou lhe explicar sobre a outra fonte de energia dos veículos. Observe o veículo e me fale se percebe algo que lhe chame a atenção.
- Percebo, sim, respondi gargalhando. Percebo sim… o carro todo me chama a atenção: as linhas, o estilo, a pintura, tudinho. Mas fora esses “pequenos” detalhes, o restante é aparentemente normal.
- Sim, mas então vou lhe mostrar o que está fora do alcance de seus olhos.
Ele então abriu o capô dianteiro e me mostrou algo bem simples, mas curioso.
- Estas são turbinas eólicas que também alimentam as baterias.
- Que interessante!
- Os veículos sempre perdem um pouco de potência ao transpor o ar, o vento, e isso ocorre por mais perfeita que seja sua aerodinâmica. Estas turbinas instaladas sob o capô, além de melhorar a aerodinâmica dando melhor passagem ao vento, ainda geram energia, a qual é então constantemente armazenada no acumulador, aumentando a autonomia e tornando o veículo ainda mais econômico.
- Que coisa simples! Em meu mundo estão tentando aproveitar a energia quando da frenagem do veículo e também por placas solares, mas desta maneira simples e funcional, acho que ainda ninguém pensou. Muito curioso, vou anotar mais essa simplicidade e levar ao meu mundo.(…)